MOSTRA e TALKSHOW VERCIÊNCIA FÍSICA PRA QUÊ? - ROBÓTICA
Casa da Ciência da UFRJ - 7 de julho de 2016, 19h

Um panorama vivo das pesquisas e inovações da área da Robótica foi apresentado ao público que participou do segundo talkshow da “Mostra VerCiência: Física pra quê?”, dia 7 de julho de 2016, na Casa da Ciência da UFRJ.  O convidado para falar sobre o tema com  José Renato Monteiro, curador da Mostra, foi o engenheiro Ney Robinson Salvi dos Reis, do Laboratório de Robótica do CENPES - Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello Centro de Pesquisas, da Petrobras.  

Trechos de documentários do acervo do Projeto VerCiência se intercalaram com uma conversa descontraída e questionadora a respeito do ‘estado da arte’ e das perspectivas da Robótica.

Robôs e Robótica: quem são e o que querem
“Máquina de lavar roupa é robô?”, foi a provocação de José Renato, abrindo a sessão. O convidado Ney Robinson destacou que “existem mais de uma dezena de definições sobre robôs, várias delas contaminadas pela ficção científica”. Para ele, deve ficar claro que o robô (*) é uma máquina que obedece a programações definidas por seres humanos e não uma “inteligência artificial”, sendo incapaz de exprimir juízos e sentimentos. Essas máquinas, ou conjuntos integrados de mecanismos, podem favorecer a solução de inúmeros problemas logísticos e mecânicos, em campos que vão da medicina às viagens espaciais. Geram, porém, outras questões de natureza socioeconômica, como o desemprego de mão-de-obra nas indústrias, onde a substituição da força de trabalho nem sempre é acompanhada de novas ofertas de emprego para os profissionais deslocados.
Para demonstrar como os robôs são indispensáveis em determinadas condições de trabalho, Ney Robinson   apresentou ao público três copinhos de isopor, com tamanhos distintos. Originalmente, todos eram iguais, mas dois deles foram submetidos a pressões atmosféricas de 1.000 e 3.000 metros de profundidade marinha - o que os fez encolher sensivelmente. A experiência comprova que muitos mecanismos de exploração petrolífera em águas profundas têm de funcionar sob intensas pressões; o desafio permanente para o Cenpes/Petrobrás é desenvolver tecnologias e equipamentos que auxiliem na operação e manutenção remota desses mecanismos, pois a presença humana nestes locais ainda é impossível: “A Robótica colabora de forma decisiva para o êxito dessas tarefas submarinas”, afirma Ney Robinson.

(*) O termo “robô” vem da palavra checa “robota”, que significa “trabalho forçado”. Foi usado pela primeira vez em 1921, pelo dramaturgo Karel Čapek em sua peça “RUR – Rosunovi Universalgi Roboti” (“Trabalhadores da Rossum Universal”). A peça tem tradução para o português, com o título “Fábrica de Robôs”.

Robôs médicos, domésticos e sociais
O primeiro bloco da pauta do talk show abordou as funções que os robôs já exercem, ou poderão exercer, na interação direta com os humanos. Um clipe do documentário “Cada Vez Menores”, da emissora pública americana WGBH, apresentou os robôs microscópicos, ainda em desenvolvimento, capazes de percorrer partes até então inacessíveis do corpo humano, para diagnosticar, conter e mesmo tratar de doenças e disfunções graves. Os microrrobôs médicos (alguns da espessura de um terço de um fio de cabelo) utilizam dispositivos capazes de operar em áreas como o interior de um globo ocular, para tratamento de lesões na retina: manejados de forma adequada até atingirem o local da lesão, administram ali a dose necessária de medicamento.
 
“Robôs sociais”, também produzido pela WGBH, traz uma visão otimista sobre os “robôs humanoides”, que em um futuro breve poderão estar desempenhando funções da rotina cotidiana, como colocar roupas para lavar ou servir refeições e até drinques no bar. No Japão, cuja população de idosos cresce significativamente, vêm se desenvolvendo “robôs cuidadores”, que virão auxiliar os idosos em atividades como a alimentação, higiene e mobilidade – e os “robôs babás”, que ajudarão a tomar conta de crianças. Mas é no campo da recuperação motora que os robôs poderão vir a ser de grande valia: os “exoesqueletos” (já em fase de pesquisa avançada, inclusive no Brasil) vão atuar decisivamente na recomposição do movimento de pessoas paraplégicas, ou que sofreram acidentes cardiovasculares (AVC), ajudando-as a voltar a caminhar.

Ao debater sobre os documentários, Ney Robinson assinala que esta “geração” de robôs está ainda em fase de desenvolvimento, e que nem sempre é possível prever quando estarão “prontos para uso”. Hoje, eles necessitam de uma quantidade extrema de sensores passivos, para orienta-los na trajetória de seus movimentos, e esses sensores ainda precisam carecem de precisão e confiabilidade.
As questões éticas
Instado por uma participante do talk show, que afirmou ser a “inteligência artificial” nada mais do que ensinar tarefas por treinamento e modelos probabilísticos, bem distante da construção do conhecimento e sentimentos humanos, Ney Robinson enfatizou a questão ética envolvida na produção e disseminação da utilização de robôs: “Os robôs não têm avós, são máquinas computando zerinhos e uns”, ressaltando o valor do componente afetivo na cognição (tomando seu próprio exemplo, ao citar a influencia que teve em sua formação o estímulo da avó materna). E prossegue na crítica à supervalorização da chamada “inteligência artificial”: “Um robô não cheira. Ele apenas tem um sensor que foi feito para sentir odor de metano, por exemplo, e quando o capta, consegue identificá-lo, nada mais” (...) “Aliás, procuramos avidamente sensores que possam perceber o cheiro de petróleo dentro d’água: se alguém souber, por favor, me avise!”, concluiu o pesquisador do CENPES.

Para outro participante do debate, a humanidade sempre foi confrontada por escolhas, e não poderia hoje ser diferente: “Se a tecnologia não segue um fluxo próprio, mas um resultante de decisões, cabe a nós saber escolher! Hoje, graças a contribuição da robótica, por exemplo, já se recuperam os lançadores de foguetes, antes desperdiçados...” Ney Robinson considera positivo este dado, mas chama a atenção para o fato de que a escolha vem sempre presidida pela questão econômica: “Recuperam-se os lançadores (que são reutilizáveis), mas não se opta por recolher a imensa quantidade de lixo espacial que deixamos espalhados por aí”.

“Será que não vale a pena optar pelo desaparecimento de algumas funções ou empregos, como sapateiro, por exemplo, e permitir que ele se torne um bom desenvolvedor de robôs?” Com essa indagação, outro participante, professor da UFRJ, abre a discussão sobre o que seria necessário à formação dos jovens que estão na universidade ou Ensino Médio e Tecnológico, e que desejassem atuar na  área de Robótica em empresas como a Petrobras.

Ney Robinson informa que o CENPES tem vagas para estagiários e que ele, em particular, procura incrementar sua vinda para o laboratório onde trabalha: “Trata-se de promover um encontro entre ideias que ainda estão rabiscadas no papel (“na bigorna”, como costumamos dizer) e a energia criativa dessa turma nova, incentivada pelo trabalho em equipe. Ninguém cria sozinho!” E conclui: “Há mais de 15 anos, fornecemos bolsas e vagas a estudantes que nos ajudam a pensar o futuro”. Um exemplo eloquente desse processo compartilhado de criação e inovação é o do envolvimento de mais de 20 alunos do nível médio à pós-graduação no desenvolvimento do robô ambiental “Chico Mendes”, projetado pelo CENPES para atuar em locais de difícil acesso na Amazônia.

Robôs de briga e robôs de paz
No segundo bloco da sessão, o debate esquenta com a exibição de “Robogames”, reportagem sobre  a participação da equipe brasileira nas Olimpíadas de Robótica, realizada em San Mateo, Califórnia. Entre as diversas categorias da competição, o destaque são as ‘lutas de arena’, com robôs de até 100 quilos. “Touro”, o representante do Brasil na prova, disputa na categoria de peso médio (tem 54 quilos) e chega à final, já tendo colecionado inúmeras vitórias em certames anteriores.

“O que lhes parece essa perspectiva de desenvolver MMAs robóticos?”, é a provocação do mediador José Renato ao público jovem da sessão. No decurso da discussão, Ney Robinson reitera que é uma questão de escolha da sociedade: “A tecnologia em si, não é boa nem má. Um drone não é essencialmente mau; mas os que são feitos para jogar bombas no quintal do inimigo são programados para fazer mal às pessoas”. E finaliza: “Esta guerra de robôs em arenas tecnológicas não acrescenta muita coisa à pesquisa. É muito recurso para pouco retorno. Se é para investir, que seja fazendo robôs para a Defesa Civil ter ferramentas que possam prevenir ou intervir em catástrofes, salvando pessoas sem expor os bombeiros”.

Um estudante do CEFET-RJ pondera sobre a necessidade de integração das diversas áreas de conhecimento e indaga: “Como se dá o processo de ‘integrar’, para não dizer ‘copiar’, elementos da natureza na Robótica?” Ney Robinson informa que a Biomimética é a ciência que estuda essa “transcrição” das formas da natureza para os projetos e produtos tecnológicos: “Esse deveria ser o caminho natural das coisas, mas o ser humano é muito arrogante... Nos nossos desenvolvimentos em Robótica, a base é a cópia da natureza”.
 
Para ilustrar esta afirmação, Ney revela que um dos robôs desenvolvidos por sua equipe foi baseado no girino, filhote do sapo; e outro tomou por base os insetos que andam sobre a superfície das águas, chamados de “patinadores”. Um problema real demandou estas pesquisas: o entupimento de dutos que conduzem o petróleo que sai de reservatórios em águas profundas, por vezes causado pela solidificação da parafina que os revestem, devida ao resfriamento desses mesmos dutos. “É aí que entra o quintal da casa de minha avó”, diz Ney, retomando a importância do componente afetivo da construção do conhecimento: “Lá encontrei, no interior de uma poça d´água cheia de obstáculos, bichinhos se mexendo com desenvoltura”. Ele constatou serem girinos, que criavam alternativas naturais de mobilidade – as quais levou para a pesquisa então desenvolvida em laboratório sobre as instalações petrolíferas entupidas. Associando estas verificações às leis da mecânica, tornou-se possível conceber um equipamento tubular que usa “patas” dianteiras e traseiras, alternadas por sistemas de bombeamento via cilindros hidráulicos, que consegue rastejar com determinação dentro dos dutos, desobstruindo-os!
 
Um robô ambiental
“Água, terra, pântano: nada parece ser obstáculo para o robô batizado de Chico Mendes.” Assim começa o “Espaço i”, documentário exibido no último bloco do talk show, com imagens do robô ambiental desenvolvido pelo Laboratório de Robótica do Cenpes. O coordenador do projeto é o próprio Ney Robinson, que explica no programa as motivações para sua concepção e desenvolvimento: “A Petrobras tem um imenso reservatório de petróleo no meio da Amazônia: o poço de Urucú, na região de Coari, a 700 km de Manaus. Para a exploração comercial do gás consorciado com o petróleo, foi construído um gasoduto, que atravessa a floresta. O desafio é como realizar o monitoramento desse gasoduto em plena selva, com ambientes de difícil acesso e, por vezes, hostil à presença humana. Surgiu, então, a alternativa do uso de robôs não-tripulados, fixos e móveis, e nossa equipe passou a desenvolver um veículo que conseguisse andar na água, sobre a vegetação e em terra firme - mais tarde batizado de Chico Mendes”.
 
O robô foi desenvolvido em três tamanhos (“pequeno, médio e grande”), em função do tipo de terreno e do material que precisasse transportar. É dotado de manipuladores que adentram a água, coletam materiais e permitem acoplar em seus braços mecânicos equipamentos que realizam a prospecção e análise do estado do terreno percorrido. Mas “Chico Mendes” opera também na avaliação do meio ambiente em que se situa o gasoduto: ele é capaz de fazer a captação de larvas de mosquitos e registra-las através de uma câmera submarina, e ainda a análise de parâmetros da água no local.

Mais:as informações coletadas podem ser enviados automaticamente para centrais de dados em regiões distantes, como a sede do Cenpes, no Rio de Janeiro. Sua operação remota é monitorada por câmeras instaladas nele, que permitem o controle georreferenciado de sua movimentação.

“Por ser uma plataforma de desenvolvimento de tecnologia, o robô Chico Mendes pode ser enriquecido  com outras aplicações”, destacou Ney Robinson, em recado dirigido especialmente ao público jovem. “O interesse da Petrobras é que universidades de todo o país se envolvam em projetos complementares, para acoplar ao robô novos e promissores equipamentos”. E alerta: “Não dá para trabalhar sozinho. Hoje, ninguém desenvolve ciência a não ser em rede” (...) “A ciência depende, antes de tudo, de políticas sérias voltadas para a pesquisa, que compartilhem o conhecimento desenvolvido e que saibam investir sem a lógica estritamente empresarial. Caso contrário, só nos restará continuar importando caixas-pretas dos estrangeiros”, concluiu Robinson, encerrando a sessão.

(Fernando Pedro – Assessoria de Comunicação / Casa da Ciência da UFRJ)

NEY ROBINSON SALVI DOS REIS
Nasceu no dia 03 de março de 1950 em Juiz de Fora, Minas Gerais. Formado em Engenharia, ingressou na Petrobras para atuar na área de Intervenção Submarina em 198. Atua hoje no Laboratório de Robótica do Centro de Pesquisas da Petrobras(Cenpes), em projetos que combinam Engenharia e Robótica. O tema de sua tese de doutorado, apresentada na Universidade Federal Fluminense, é “Desastres, emergências e contingencias naturais: o uso da Robótica na prevenção e socorro ambientais”.

Mais informações sobre Ney Salvi dos Reis:
http://memoria.petrobras.com.br/depoentes/ney-robinson-salvi-dos-reis#.V3WHz_krI_5


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